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A universidade está se transformando numa grande escola

A universidade está se transformando numa grande escola

As atividades acadêmicas estão cada vez mais esvaziadas, já não há tanta procura dos universitários pelos grupos de estudo, por exemplo. Esses espaços que antes concentravam muitos estudantes interessados em ir além da sala de aula da universidade. Os próprios eventos acadêmicos estão com menos presença.

Os professores universitários, a maioria deles muito comprometidos com seu trabalho, preocupados em levar o melhor que a ciência tem produzido para seus alunos, enfrentam uma dura realidade: falta de leitura por parte dos estudantes. Além disso, os docentes precisam disputar contra as redes sociais a atenção dos alunos durante a aula. Hoje é comum universitários assistirem Tik Tok, acessarem Instagram e outros aplicativos enquanto o professor tenta fazer seu trabalho. Atenção, estamos falando da Universidade!

Da leitura e debate crítico de obras inteiras durante as disciplinas na universidade, passamos para recortes apenas. Assim como um vídeo na rede social não pode durar mais que alguns segundos e no máximo alguns poucos minutos, na universidade o professor não pode mais utilizar um livro em sua disciplina. O docente deve limitar-se a capítulos e artigos, de preferência que não ultrapasse umas dez laudas. É como se a Universidade, de alguma maneira, se adequasse silenciosamente à superficialidade do mundo digital, à efemeridade das redes sociais. Isso tudo, vai no caminho oposto da construção da ciência, um dos pilares da universidade.

Abrindo um parêntese, uma pesquisa realizada pela Fundação Getúlio Vargas (FGV) revelou que a utilização de smartphones durante as aulas no ensino superior, impactou na redução de praticamente metade do rendimento dos universitários. Parece que aquela história de que essa geração já nasce ‘antenada’ no mundo digital, e que por isso é acostumada a processar muitas informações ao mesmo tempo, não é tão verdade assim. Essa pesquisa da FGV prova que, ao utilizar o smartphone durante as aulas, os estudantes não conseguiram apreender quase metade do conteúdo que estava sendo trabalhado pelos professores. Estudos realizados em outros países também chegam em conclusões semelhantes, como a pesquisa de Paul Kirschner realizada na Holanda e publicada na revista científica Computers in Human Behaviour.

Antes os universitários se envolviam com as atividades acadêmicas, pela curiosidade, pela vontade de conhecer, de protagonizar. Independente se isso levasse necessariamente para uma compreensão crítica radical da sociedade. Como consequência, dessa participação ativa, com preocupação em desenvolver pesquisa etc, esses estudantes passavam quase todo o tempo da graduação com bolsas pagas pela própria universidade ou instituições de fomento à pesquisa. Claro, com valores abaixo do ideal.

Hoje, aparenta o contrário. Estudantes disputam bolsas pelo valor a receber apenas, não pela experiência de formação, pelos conhecimentos que podem obter daquele processo, pela oportunidade de desenvolver pesquisa a partir dos conteúdos trabalhados durante o período de bolsa etc. De modo geral, parece que a lógica se inverteu por completo, mesmo se tratando de valores ainda precários para a manutenção do universitário.

Ao mesmo tempo, os jovens parecem estar entrando na universidade não exatamente mais novos, e sim, mais imaturos para o mundo universitário. A despeito desse fenômeno, vale lembrar que pesquisas já estão apontando que a adolescência está iniciando mais cedo e indo até aos 24 anos, como é o caso do trabalho publicado na revista científica The Lancet: Child & Adolescent Health. O que é, de certo modo, corroborado pelo fato de que o cérebro humano só atinge seu ápice de desenvolvimento por volta dos 30 anos.

É possível assim que haja uma relação entre essa adolescência prolongada e a falta ou pouca responsabilidade sobre a própria formação demonstrada por muitos universitários atualmente. Mas há entre um polo e outro dessa equação inúmeras mediações.

Na época de ensino médio, de certo modo, os jovens são ‘obrigados’ a comparecem na escola e nas aulas. Quando há qualquer problema em sala, um pouco mais de falta de atenção, conversa paralela etc, os estudantes são chamados a atenção e os pais são notificados a depender da gravidade. Daí há toda uma cobrança por parte dos pais, castigos se as notas não forem satisfatórias ou se houver reprovação no colégio. Bom, pelo menos era assim até alguns anos atrás, atualmente esse cenário parece passar também por uma inversão.

Parece que comportamento ‘adolescente’ está se reproduzindo ou chegando na universidade. Mas na faculdade, não há mais aquela cobrança dos pais pelo comportamento dos filhos nas aulas. Não cabe também aos professores universitários relatar indisciplina, desatenção e conversas paralelas para o ‘diretor’ e/ou os pais do aluno.

Espera-se que na universidade os estudantes assumam a responsabilidade pela formação, espera-se que sejam minimamente maduros para tal. Mas aí é que reside o problema: ainda são adolescentes! Tanto é que, de acordo com o INEP, 56% dos estudantes universitários mudam de curso. Um dos motivos é justamente não saber que profissão seguir, que por consequência, não os leva a ter certeza de qual curso fazer na universidade. A indecisão, o não saber o que quer da vida profissionalmente ou até pessoalmente, pode até ser visto em adultos como exceção, mas é algo típico e até natural da adolescência.

Mas não queremos aqui parecer que estamos julgando os estudantes universitários, muito menos pondo neles exclusivamente a culpa pela universidade está virando uma grande ‘escolona’ de ensino médio. Do lado da universidade também pesam alguns elementos que contribuem com esse processo. E quando falamos ‘universidade’ não nos referimos ao corpo docente, mas sim, aos seus mantenedores, que no caso da universidade pública é o Estado.

Na Universidade Estadual do Ceará (UECE), por exemplo, o último concurso realizado não dispunha de dedicação exclusiva. Na prática, significa que um valor a mais que o professor receberia para dedicar-se exclusivamente a universidade, para que possa desenvolver pesquisa e promover extensão, não está sendo pago para os novos efetivos da UECE.

Essa dedicação exclusiva é um incentivo ao professor universitário, para que, ao dedicar toda sua atividade profissional naquela universidade, possa promover pesquisa, desenvolver projetos de extensão, criar e mediar grupos de estudos etc. Acontece que sem esse incentivo, consequentemente recebendo um salário muito inferior, o docente universitário vai virar um ‘dador de aula’ apenas. Com uma jornada de trabalho de 40h semanais e recebendo menos, como e em que horário os novos professores efetivos da UECE irão desenvolver pesquisas e todas as outras atividades que já mencionamos?

Ou seja, tem-se mais um elemento que corrobora o processo de tornar a universidade uma escola, na qual apenas se tem aulas. É minado, portanto, o famoso tripé da universidade: ensino, pesquisa e extensão. Apesar disso, no caso específico da UECE muitos professores e militantes de esquerda no Ceará louvaram como positivo a realização do concurso em tais condições.

Mas o pior ainda está por vir. O caso da UECE não é isolado, ele representa uma tendência daqui para frente, de acordo com o avançar do capitalismo em crise estrutural e suas determinações sobre o ensino superior.

Junta-se os dois lados da moeda e obtém-se a tragédia: uma universidade sem pesquisa, sem extensão. Universitários que passam mais tempo da aula nas redes sociais, com comportamento típico de adolescente que não tem responsabilidade pela própria formação etc. Chegamos ao cúmulo de professores terem que pedir aos universitários para se retirarem da sala de aula para que, só assim, o docente possa trabalhar o conteúdo planejado.

Vivemos diante de novos tempos, com novos e velhos problemas. Esse é apenas mais um deles que está aí batendo à nossa porta. Como ele será resolvido, se é que será, sobre isso já não temos qualquer ideia.

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