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Cultura de paz nas escolas: um falso socialmente necessário?

Cultura de paz nas escolas: um falso socialmente necessário?

Não sei você, mas eu não me recordo que em algum momento da minha vida estudantil um professor tenha estimulado, pelo menos intencionalmente, qualquer tipo de violência. Mas é claro que isso não basta para afirmarmos que a escola como um todo não reproduz variadas formas de violência. Ela o faz, e isso é um fato.

Porém, há uma série de equívocos e erros por parte de projetos e programas que tentam tratar da questão da violência nas escolas e promover a tal “cultura de paz”. Vejamos o problema um pouco mais de perto.

A primeira e principal falha desses programas é que eles parecem entender que a violência surge a partir da escola. Seguindo essa lógica, uma vez que consigamos promover a cultura de paz nas escolas, formaríamos indivíduos menos propensos à violência e… bingo! acabaríamos com a violência no mundo.

O problema desse raciocínio é que, como sabemos, a violência na escola é um produto do meio em que a escola está inserida. O ambiente escolar, portanto, predominantemente reproduz a violência da comunidade que o cerca. O racismo, a lgbt-fobia, o preconceito de gênero e tantas outras formas de violência adentram as escolas e são por elas, inevitavelmente reproduzidas no nível ideológico. Isso pelo simples fato da escola não estar apartada, à margem da sociedade.

Estas formas de violência que são reproduzidas no contexto escolar têm raiz no modelo de organização da produção da riqueza material. Numa sociedade que produz alimentos para quem pode pagar e não para quem tem fome, inevitavelmente é uma sociedade de miseráveis e pessoas famintas. Não é por acaso que nos anos dois mil a ONU estimava uma morte de criança por fome a cada 4 segundos.

Numa sociedade em que o ser humano não passa de mero instrumento para obtenção de lucro – e isso é já uma terrível forma de violência –, não pode existir uma ética. O modelo societário que subsiste da exploração do trabalhador, de sua desumanização ao extremo, de sua coisificação para promover a ostentação de um punhado de abastados, não pode achar que pode promover algum tipo de paz. Este é o cerne da violência em geral.

Nesse contexto, iniciativas como PREVINE no estado do Ceará e o Escola que Protege, este em nível nacional, são esforços que, apesar do que arvoram seus idealizadores e apoiadores, tendem necessariamente a falhar. A superficialidade desses e de outros programas, por não captarem a realidade em sua essência – e nem poderiam –, consequentemente, andam em círculo e constituem-se como falsas soluções.

A realidade nos dá uma dura prova da ineficácia dessas tentativas. No Ceará, por exemplo, as taxas de homicídio alcançaram a segunda posição nacional de 2024 para 2015. A estatísticas apontam também o crescimento de 23% da violência nas escolas. E recentemente circulou na mídia a tentativa que por sí já é uma tragédia: estudantes tentando envenenar professores. Os exemplos são extensos.

Além de, por sua própria natureza, estarem fadados ao fracasso, estas iniciativas que tentam fomentar uma cultura de paz em escolas imersas numa sociedade violenta, acabam disputando espaço com a função primordial da escola. Escola é lugar de apreender conhecimento científico tratado didaticamente. Esses programas e projetos acabam, na maioria das vezes, gerando para os professores e gestores escolares demandas que os sobrecarregam e tomam parte do tempo em que deveriam trabalhar o básico – que nem isso se consegue, dado a miríade de projetos e programas que são empurrados para as escolas.

Ao final das contas, estes programas acabam corroborando uma lógica de precarização ao extremo da educação. Onde já não se consegue o básico de forma consistente, agora se faz necessário combater as violências. A escola e os professores são convocados a vencer o bullying, o racismo, o tráfico, o assédio, o preconceito de gênero etc.

Enquanto isso, nada se discute sobre as origens dessas violências, sobre o papel do Estado no fomento dessas violências e, muito menos, sobre o aprofundamento da precarização da escola que torna-se cada vez mais superficial e aligeirada. Os programas e projetos que tentam fomentar a cultura de paz nas escolas, somados a tantas outras iniciativas igualmente problemáticas, acabam servindo como cortina aos verdadeiros e reais problemas.

Apesar disso, travestidos de novidade e de algo necessário, iniciativas como estas são muito bem vistas pela maioria dos profissionais da educação. E de fato são necessárias, mas não pelo fato de solucionar o problema ao qual se propõem, e sim por serem úteis para o Estado na manutenção de uma educação precária e de uma ideologia de que é possível reverter os danos causados pelo capital.

Isto, sabemos, é impossível enquanto subsistir a exploração do humano pelo humano. Enquanto perdurar o capital, só podemos esperar a barbárie ou a extinção da humanidade. E não será a escola com seus projetos de “cultura de paz” que reverterá essa situação.

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