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Desmistificando a pós-graduação stricto sensu

Desmistificando a pós-graduação stricto sensu

Até pouco tempo atrás, acessar um curso de mestrado ou doutorado era uma realidade muito distante para a maioria dos(as) trabalhadores(as). Na verdade, qualquer curso em nível superior já era de difícil acesso para nossa classe. Nossa formação sempre foi restrita e limitada aos interesses dos patrões.

Apesar disso, a própria necessidade de mão de obra do capitalismo e do mercado para preencher os novos postos de trabalho, obrigou a criação de novas vagas e cursos no ensino superior. Os patrões e a classe dominante em geral precisou dispor de um pouquinho mais de educação e instrução formal para seus empregados, do contrário, os lucros da burguesia poderiam ser durante afetados.

Na “contradição” da expansão do acesso ao ensino superior para formar a mão de obra necessária ao funcionamento do capital, gerou-se também mais oportunidades de carreira acadêmica através dos programas de pós-graduação. Contradição entre aspas pois, como sabemos, a formação em nível de mestrado e doutorado serve predominantemente para formar professores universitários, em resumo: “burocratas”. No limite, no limite mesmo, obtêm-se um bom professor. Aquele que cumpre direitinho sua carga horária na universidade, segue a ementa e não “enche linguiça” na aula.

No entanto e apesar da contraditória expansão dos programas de pós-graduação stricto sensu, estes são ainda não só limitados e inacessíveis para muitos trabalhadores e trabalhadoras, como também são revestidos por uma certa áurea quase “sobrenatural”.

Criou-se uma imagem ­– especialmente dirigida para os mais pobres – de que cursar mestrado ou doutorado numa universidade pública é algo muito difícil, reservado apenas para umas poucas mentes brilhantes. De fato, não deixa de ser algo meio desconfortável para boa parte da classe média alta que adentra nesses programas, conviver com um filho ou filha de trabalhador. Quem como nós, frequentamos esses programas, é perceptível não só esse certo desconforto como também a sensação de que a realidade daquele espaço não bate como a nossa realidade.

E, claro, nos é desconfortável também a convivência com aqueles que ali estão apenas para ostentar depois o título de doutor, com uma vaidade acima da média. Estes só pisam nos corredores e salas dos programas de pós-graduação por que as leis da física não os permite flutuar. Isso não significa que nós, trabalhadores e trabalhadoras, não devemos nos orgulhar ao obter títulos acadêmicos. Mas nosso orgulho é diferente, é pelo desafio infinitamente maior que enfrentamos desde a alfabetização, é a superação, ainda que pessoal, de uma barreira histórica: a precarização extrema da educação da classe trabalhadora. E mais, nosso orgulho deve obrigatoriamente converter-se em compromisso com a classe trabalhadora e com a superação do capital. Os conhecimentos obtidos através de nossas pesquisas devem sempre ser colocados a serviço da organização da classe trabalhadora tendo como horizonte a revolução socialista.

Mas vamos lá! Mestrado e doutorado não é “bicho de sete cabeça”. Não é extremamente difícil entrar numa pós-graduação stricto sensu, ao ponto de apenas pessoas dotadas de uma inteligência singular consiga a vaga. É claro, necessita-se de um certo esforço que, se bem direcionado e bem orientado garante boas possibilidades de êxito.

Como a ideia central da pós-graduação stricto senso é a pesquisa, o(a) candidato(a) precisa ter alguma proposta de pesquisa em mente. Geralmente essa proposta inicial vem da graduação, na qual se inicia no mundo da pesquisa acadêmica; é onde produzimos nossos primeiros artigos científicos e para alguns cursos uma monografia como exigência para colação de grau.

Com essa ideia inicial de pesquisa – fruto da graduação, ou não – é preciso encontrar um programa de pós-graduação que tenha linhas que contemple a discussão que sua proposta aborda. Pois, como é intuitivo, não adianta um excelente projeto de pesquisa sobre avaliação da aprendizagem no ensino fundamental, se você tentar inscrevê-lo numa seleção de um programa de pós-graduação em física teórica. Embora em muitos casos possam haver relações, conexões distantes, o seu projeto precisa dialogar diretamente com o programa e com a linha dentro do programa a qual você pretende pleitear uma vaga. E mais que isso! Ele precisa ser do interesse do professor que está ofertando as vagas das quais você irá disputar. É correto que em alguns casos, mesmo o projeto não contemplando o interesse de pesquisa do professor que está ofertando a vaga, ainda assim é recebido, aceito para orientação. Mas essa não é a regra, e sim, a exceção.

Existe também o “mito” de que só é aprovado quem seja conhecido daquele ou daquela professora que está ofertando as vagas. Não é assim que funciona, apesar de existir um traço de verdade nessa afirmação. Acontece que, no geral, o programa de pós-graduação e seus professores sempre esperam captar orientandos que tenham um compromisso com a pesquisa, que não abandonem o mestrado ou doutorado pelo meio do caminho, que não atrase as qualificações, defesas, que não seja um aventureiro e, não podemos esquecer: que seja produtivo.

Como um professor que está ofertando vaga para orientação identificará esse perfil em alguém que está participando da seleção? Não identificará numa entrevista de alguns minutos cuja maior parte é sobre o projeto, muito menos pela prova escrita e menos ainda pela própria proposta de pesquisa submetida. Mas há um meio de saber isso. Se o pretendente à vaga tiver um histórico de envolvimento com a pesquisa, com grupos de estudos e demais atividades acadêmicas, principalmente ligadas ao grupo de pesquisa do professor que está ofertando as vagas. Se é algum aventureiro, certamente não se envolverá por anos em nada disso, pois é trabalhoso e as vezes exaustivo. Apenas quem realmente tem interesse por pesquisa adentra nesses grupos e permanece efetivamente.

O que quero dizer com isso é o seguinte. Não é que você precise ser amigo(a) do professor, mas se ele souber que você tem uma trajetória de pesquisa e, consequentemente, produção naquela área de interesse dele, as suas chances de pegar a vaga aumentam. Obviamente que isso não elimina as outras necessidades: um projeto bem feito, tanto estruturalmente como em termos de conteúdo, além de uma bagem teórica mínima sobre seu objeto. Ah! E isso também não isenta o mau-caratismo que existe em todos os lugares.

Em resumo, não é simplesmente fácil entrar numa pós-graduação stricto sensu, mas não é algo reservado apenas para “mentes brilhantes”. E aqui falo especialmente dos programas de universidades públicas, pois em instituições privadas prevalecem outras regras e outros problemas. Um destes problemas, por exemplo, é a validação posterior do diploma que se arrasta (na maioria das vezes) por anos e anos. Para quem quer só o título e depois não conseguir validá-lo pode ser uma grande frustração. É extremamente recomendável que se procure, ao invés de instituições privadas, as universidades públicas.

Ao contrário de décadas atrás, atualmente num raio de cem quilômetros contados a partir do Maciço de Baturité, existem em torno de 199 cursos de pós-graduação stricto sensu em universidades públicas. Ou seja, são muitas opções que contemplam uma infinidade de temas e interesses de pesquisa. Certamente o seu se encaixa em algum deles.

Vamos invadir esse espaço! Boa sorte.

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