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Engels e a homoafetividade

Engels e a homoafetividade

Na Ideologia Alemã Marx e Engels exaltam a história como única ciência. Claro que os fundadores do socialismo científico não estavam a negar todos os outros campos do conhecimento científico, mas afirmando que economia é história, física é história, matemática é história, tudo é história.

Nesse sentido, a compreensão sobre o mundo, as relações sociais como um todo e em especial as interações afetivas entre as pessoas também são históricas. Elas são construídas ao longo do tempo dificilmente de modo linear, mas sempre contraditoriamente. Há momentos de avanços e retrocessos.

Como não poderia ser diferente, o amor, em todas as suas manifestações, não escapa a essa regra geral. Tanto é que o amor que conhecemos hoje surge na época vitoriana, que comparando cronologicamente com a história das sociedades é algo muito recente. Isso não significa, como é óbvio, que não haviam relações conjugais, sexuais entre as pessoas antes, acontece que essas não tinham a mesma conotação afetiva. Ou seja, eram essencialmente voltadas para a reprodução biológica e a manutenção de poder.

No mesmo sentido histórico estão as relações homoafetivas. Engels, por exemplo, em A origem da família, da propriedade privada e do Estado, entende a relação amorosa entre indivíduos do mesmo sexo como um desvio, uma especíe de vício resultado de uma dada realidade. Ainda assim, Engels capta como nunca algo essencial: as relações afetivas também são produto histórico e fruto das relações sociais.

Ora! para os dias de hoje Engels está absurdamente equivocado. Mesmo que tal equívoco esteja longe dos devaneios moralistas que escutamos hoje sobre esse assunto, há quem se agarre nele para desqualificar toda a produção teórica engelsiana, e por tabela, o marxismo como um todo.

Nessa pressa em desqualificar, não consideram que Engels teve o mérito de expor a família e, por extensão, o amor, em bases completamente materiais e históricas. Ou seja, as arrancou das entranhas do misticismo religioso. Esse feito para sua época foi um divisor de águas, servindo para que avançasse posteriormente o conhecimento sobre essa área.

O grande problema desses críticos mais apressados é que, para todos os demais autores é importante não cometer anacronismos, menos para Marx e Engels (com destaque para o primeiro). E aqui não se trata de uma insistente tentativa de defesa desses autores, isso a amplitude, profundidade, impacto e alcance de suas produções o fazem por si sem maiores esforços.

Resta dizer que, para quem se dedica seriamente à compreensão da realidade com vistas à transformação radical da mesma, enxerga nessas equivocadas reflexões de Engels um estágio no desenvolvimento do conhecimento sobre o tema (naquela quadra histórica ainda muito limitado).

Já para a crítica vulgar, ansiosa por mais um paper no lattes e uma centelha de brilho acadêmico, ali não se vê outra coisa além de homofobia.

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