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Seria o marxismo uma ideologia?

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Seria o marxismo uma ideologia?

Uma das críticas mais recorrentes que os opositores medianos do marxismo fazem, inclusive dentro da academia, é: O marxismo é uma ideologia¹. Esse posicionamento demostra basicamente duas coisas. A primeira é que esses opositores são ignorantes quanto ao marxismo e, em segundo lugar, que prestam um enorme desserviço para a classe trabalhadora. Vejamos a situação um pouco mais de perto.

De início, a resposta para a pergunta sobre se o marxismo é ou não uma ideologia é um taxativo sim! Mas se o marxismo é uma ideologia, por qual motivo a crítica acima apontada é expressão de ignorância? O motivo é simples: ela parte do entendimento mais vulgar de ideologia, ou seja, tendo esta como sinônimo de falsa consciência.

É claro que, até mesmo entre os marxistas existem aqueles que ainda entendem ideologia como um entendimento errado da realidade. Isso é perfeitamente normal, pois ninguém, nem mesmo os marxistas, estão isentos de uma compreensão equivocada da obra de Marx, sobretudo quando se desconsidera desta obra o seu caráter de ontologia.

Bom, acontece que ideologia para Marx não se trata de uma falsa consciência da realidade, não necessariamente. E precisamente nesse ponto reside a ignorância da qual falamos. A ideologia, sendo didático, consiste num conjunto de ideias que colocam em movimento e/ou trazem soluções para as lutas sociais. Soluções aqui, entenda-se, podem ser benéficas ou não para a classe trabalhadora, para a burguesia, para a humanidade etc.

Nesse sentido, quando os patriotários de hoje chamam a luta por igualdade de gênero de ideologia de gênero, eles estão certos pelos motivos e fundamentos errados (sendo generoso). Pois se o conjunto de ideias e pensamentos de diversos movimentos pró e contra a igualdade de gênero cristalizam-se em lutas práticas em diversas esferas como política, jurídica, na educação e nas ruas, então sim, é uma ideologia.

Seguindo esse mesmo raciocínio, o conjunto de ideias neoliberais sobre a educação que se materializam nas salas de aulas das universidades e dos programas de pós-graduação, constituem-se igualmente como ideologia. Estas ideias, ao se cristalizarem na luta contra outras concepções de educação que, por exemplo, propõem uma formação omnilateral do ser humano, apresentam-se como uma saída, como uma resolução para tais disputas.

Mas o equivocado entendimento do que seria ideologia causa ainda outros problemas, um deles é de natureza, digamos, metodológica, implicando na pesquisa e na consequente produção de ciência pelas universidades. Pois vejamos, se o marxismo é ideologia e se ideologia é uma falsa consciência da realidade, qualquer pesquisa ancorada metodologicamente pelo materialismo histórico-dialético estaria, desde a sua base, condenada a uma apreensão falseada do objeto. Logo, não seria ciêndo marxismo fazem, inclusive dentro da academia, é: _O marxismo é uma ideologia[cia.

Ora, ora! O que poderia ser mais superficial do que as pesquisas que pretendem captar o olhar sobre um determinado objeto? ou as pesquisas que gastam horrores de páginas para expor relatos de experiências de um determindo grupo sobre um dado objeto de investigação? Certamente, não será no currículo de um pesquisador comunista que se encontrará tais pérolas.

Mas o que teria de errado com o olhar, com os relatos de experiência e outras colchas de retalho? Simples, o olhar e os meros relatos de experiência não dão conta da realidade em sua imanência. Como disse o velho Marx em O capital, se a forma fenomênica das coisas coincidissem diretamente com sua essência, a ciência seria supérflua. O tal olhar, assim como a experiência relatada (entre outras bricolagens) capta não mais que o fenômeno, a aparência da realidade, jamais sua essência.

E isso vale dizer, não se trata de um julgamento moral. É memorável, até belo e agradável para muitos, ouvir relatos de trabalhadores de fábrica, de associações de mulheres, de quilombolas etc, por exemplo. Mas se o(a) pesquisador(a) não ultrapassar a superfície, se não descer até as raízes históricas em sua articulação com a produção da riqueza material, se não reconstruir o movimento do real por trás das falas e dos olhares, sinto dizer: não estará fazendo ciência autêntica.

Chegamos então a um curioso resultado. Se estas pesquisas que se contentam com a superfície do problema, com sua manifestação fenomênica, não se aproximam de fato da realidade imanente de seus objetos, elas seriam, segundo a própria concepção de ideologia destes deuses pesquisadores, uma mera ideologia. A ignorância chega ao ponto de, eles próprios, segundo suas próprias regras (entendimento limitado e falseado da categoria ideologia), serem enquadrados no crime do qual acusam os marxistas.

Mas isso é só uma parte do problema, pois a quem interessaria essa inautêntica ciência, essa superficialidade das pesquisas descompromissadas com o desvelamento do real? Que classe social se beneficiaria dessa ideologia? Ora! para a classe trabalhadora, ontologicamente nada importa senão a desmistificação da realidade, pois conhecer o mundo radicalmente é parte essencial para a superação do domínio do capital e da exploração do humano pelo humano.

Disso se conclui que essa ideologia, essas pesquisas rasas e descompromissadas com a classe trabalhadora, só podem atender aos interesses da classe dominante. Só para esta classe é que interessa a manutenção da exploração atual, a mistificação da realidade para que cada vez mais seja dificultado aos trabalhadores apreenderem a real dimensão de sua condição, de sua degradação. E aqui, voltamos atrás nas palavras: as pesquisas (e seus pesquisadores) superficiais, limitadas a mera aparência do mundo, têm sim compromisso, mas com a classe dominante. O nível de consciência sobre este estado de coisas, se o fazem conscientemente convencidos ou não, em nada altera a situação.

Em resumo, são eles que fazem uma pseudo ciência, e ao fazerem legitimam a ordem vigente, a exploração e degradação da humana impostas pelo capital. São, portanto, além de ignorantes quanto a uma compreensão autêntica da categoria da ideologia, sobretudo dentro do marxismo, prestadores de um desserviço enorme para as classes trabalhadoras.

Para concluir, o marxismo é sim uma ideologia, em todos os seus aspectos pressupõe uma tomada de posição na luta de classes, e não há nenhum problema nisso. Metodologicamente, nosso princípio fundamental é a aproximação com a realidade em sua imanência, e não poderia haver critério científico maior que este. Talvez seja exatamente isso que incomoda os pesquisadores alinhados com o capital e o estado burguês.

Então da próxima vez que presenciar alguém criticando o marxismo por ser uma ideologia, lembre-se que essa pessoa pode nem ao menos saber o que é ideologia, menos ainda o que é ideologia em Marx e/ou Lukács.


¹ Para melhor compreensão do que seja ideologia veja (quero dizer, estude!): A ideologia Alemã (Marx e Engels), Manuscritos Econômicos Filosóficos (Marx), O Capital (Marx), Para uma ontologia do Ser Social (Lukács).

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