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Pedagogia da concorrência: fábrica e mercado dentro da sala de aula

Pedagogia da concorrência: fábrica e mercado dentro da sala de aula

Até que ponto o modelo atual de educação é realmente benéfico para as atuais e futuras gerações? Sabemos que quando o assunto é educação, vários problemas são visíveis logo de cara, como o pouco investimento que reflete em uma estrutura obsoleta e inapropriada para os tempos atuais.

Mas estes são apenas fenômenos cuja essência reside no próprio modelo de sociabilidade vigente. O capitalismo, como já dizia Marx, transformou em mercadoria até a inocência das crianças, que dirá a educação e as práticas pedagógicas nela desenvolvidas.

Assim, numa sociedade pautada pelo individualismo exacerbado, pela busca desenfreada por lucro – mesmo que custe a vida de milhões de pessoas –, a educação não ficou à margem do processo. Ao contrário, como predominante reprodutora do status quo, está inevitavelmente se tornou também palco para essa corrida sem fim, essa concorrência insaciável e incurável do capitalismo.

A lógica do mercado literalmente adentrou a sala de aula! Ao que tudo indica, essa transformação sofrida pela educação escolar não tem contribuído muito com uma formação realmente necessária do ponto de vista da emancipação humana. O que já não é nenhuma novidade.

Libâneo, assim como tantos outros autores já expuseram exaustivamente essa relação. A ilusão do livre mercado, da livre concorrência, de que para vencer basta querer já que as oportunidades estão dadas pelo deus todo poderoso chamado capitalismo, escalou a concorrência e o individualismo em um grau que jamais imaginávamos.

Tudo ilusão, porém necessária para tentar perpetuar um modelo societário que, como diz Marx, é o coveiro de si mesmo. O livre mercado é uma farsa, e o é igualmente seu reflexo na educação como mostraremos a seguir. O Estado mínimo só é mínimo para alguns, para a maioria na verdade. Para os capitalistas o Estado é sempre gigante, os amparando a todo e qualquer momento, assim necessitem.

O Estado cumpre muito bem o papel de administrador dos interesses da burguesia. Quantas vezes já não vimos no noticiário a mão amiga do Estado injetando milhões, bilhões no setor privado para evitar a bancarrota de grandes multinacionais? Ao contrário disso, como bem observamos na pandemia, muitos pequenos comerciantes foram forçados a fechar as portas. Ao mesmo tempo os banqueiros não dispensaram sequer um real dos empréstimos cedidos, não é atoa que quando pequenos empreendimentos quebravam os bancos batiam recordes de lucro.

Tudo isso reflete diretamente na educação escolar, resultando em uma concepção extremamente competitiva de conduzir os processos escolares assim como as próprias políticas educacionais do Estado. Adotando portanto a mesma estratégia mercadológica.

A escola ensina os alunos a competirem entre si desde as primeiras séries, por consequência corroboram desde cedo a ideia do ‘melhor’, do que se sobressai perante os demais. Este será premiado, será homenageado, em contraposição aos outros que fracassaram. Isso levado ao chão da sala de aula se torna algo muito perigoso, sobretudo pelo fato de que, na imensa maioria das vezes, os ‘fracassados’ já iniciaram a corrida em desvantagem.

Se observarmos o Prêmio Escola Nota 10 aqui no Ceará, veremos a mesma lógica se repetir agora não mais entre os alunos, mas entre escolas e municípios. O executivo estadual através da SEDUC estimula a concorrência entre escolas e municípios, a que se sair melhor entre ganha prêmio em dinheiro além de equipamentos eletrônicos.

Dado a largada, escolas hiper precarizadas em todos os sentidos, inclusive no que diz respeito aos seus profissionais que muitas vezes são reféns de grupos políticos nos municípios, tentam fazer o que não podem com o que não têm. O resultado disso obviamente não pode ser bom. E não tem sido.

Percebe a inversão? Ao invés de primeiramente investir de verdade na educação, dando ao menos as mínimas condições estruturais, para daí colher os frutos, o Estado espera que essas escolas apresentem bons resultados para depois aprimorá-las através de premiação. Isso nada mais produz que um clima de disputa entre pares, entre gestores etc, fomentando o espírito da concorrência em desfavor de uma perspectiva coletiva.

O discurso aqui é o mesmo: todas as escolas podem conseguir a premiação, todos os professores podem ser destaque, basta se esforçarem. A educação segue assim reproduzindo no seu interior a mesma lógica capitalista-mercadológica, o resultado são gerações inteiras sendo (de)formadas com a ideia de que existe chance para todo mundo, basta ser o melhor. Ora! Isso significa que no caminho muitos terão necessariamente que ficar para trás. Uma grande contradição.

É isso que nosso maravilhoso capitalismo e seu secretário, o Estado, tentam camuflar. O irrefutável fato de que não há oportunidades para todos, a forma de ser do capitalismo é em si excludente, segregadora. Por isso é preciso competir! E a escola está corroborando exatamente com a legitimação desse mascaramento.

Antes preferia-se alguém com muito conhecimento em uma determinada área, hoje, estimula-se o domínio de pelo menos um pouco de tudo. Caso você perca o trabalho – o que não é difícil, dado que vivemos no mundo do não-trabalho e do desemprego – poderá com mais facilidade conseguir outro trampo para sobreviver, literalmente sobreviver, e olhe lá.

A escola e a pedagogia estão remando nessa mesma corrente, minando as possibilidades e potencialidades dos indivíduos em prol de uma ilusão do capitalismo. Forma-se hoje, cada vez mais, pessoas super individualistas e competitivas. E o pior, a própria escola – rigorosamente rezando na cartilha do mercado – promove esse tipo de formação como algo positivo.

Não bastasse isso, a escola virou também uma fábrica de números, pois é isso que importa para o mercado: simplesmente números. O SPAECE no Ceará é outro exemplo que veio somar nesse processo de atrofiamento da educação, da formação de crianças e adolescentes em taxas e porcentagens. Todos os municípios cearenses têm seus anos letivos dominados por essa avaliação externa, o que mais uma vez desemboca na promoção de uma cultura competitiva e concorrencial inter e intra municípios.

Mais do que isso, o SPAECE conseguiu a proeza de, nas escolas, inverter o foco do ensino aprendizagem para a avaliação. Uma consequência direta disso é que não raro a escola passa quase, senão todo o ano, aplicando simulados para a avaliação externa. Dito de outro modo: treinando, adestrando os estudantes para responderem uma avaliação. Nesse esforço, abre-se mão até das outras componentes obrigatórias do currículo.

Apesar de lamentável, essa dura realidade da escola, da educação como um todo, está distante de uma mudança positiva. Enquanto persistir a sua base, ou seja, o modelo societário vigente, ela continuará a na prática da pedagogia da concorrência, alinhada aos ditames e interesses do Estado e da divindade mercado.

Mas não desanimemos! A história nos prova que nem sempre foi assim, e que portanto, poderá ser diferente no futuro. Para onde iremos? Aí já é uma pergunta difícil de responder. Mas um grande maraxista certa vez disse: comunismo ou barbárie! Bom, muitos já consideram que vivemos numa verdadeira barbárie, nesse caso, nos restaria a outra opção.

Fato é que, ontologicamente, o ser humano desenvolveu-se ampliando a cooperação entre indivíduos e grupos cada vez mais numerosos, isso inclusive foi decisivo nos processos que permitiram o surgimento da educação. Atualmente, observamos o movimento contrário: a educação em sua forma stricta fomentando diariamente a concorrência sem limites e o individualismo. Ao que parece, estamos regredindo nesse ponto.

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