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Pós-graduação e adoecimento mental: quando a instituição é cúmplice

Pós-graduação e adoecimento mental: quando a instituição é cúmplice

Pós-graduação e adoecimento mental: quando a instituição é cúmplice

O adoecimento mental de professores e estudantes na educação básica é uma realidade há muito conhecida e, ao mesmo tempo, negligenciada. Mas esse problema não está restrito ao ensino fundamental e médio. Ele passa pela graduação e vai até a pós-graduação stricto sensu.

A pandemia de Covid-19 teve, claro, seu peso no agravamento da saúde mental de estudantes de pós-graduação. Pesquisas indicaram que 45% dos alunos de pós-graduação foram diagnosticados com ansiedade generalizada, enquanto 17% desenvolveram depressão. Isso, no contexto de pandemia.

Mas a pandemia não pode ser responsabilizada sozinha por esse problema.

A pós-graduação tem se afundado cada vez mais na lógica produtivista que impera na sociedade atual, e isso tem impactado violentamente na saúde mental dos discentes. A competitividade exacerbada do mercado já há muito tempo é uma realidade dentro da pós-graduação.

O resultado disso é uma pressão constante sobre os estudantes, cobranças reiteradas por publicações e discursos ameaçadores. Essa corrida desenfreada por publicações em revistas gira em torno de números apenas, e nada mais. Tem-se a ilusão de que eles, os números, as quantidades de publicações, traduzem-se em qualidade. Nada pode ser mais fantasioso do que isto, mas sobre os papéis podres falaremos em outro post.

O fato é que toda essa pressão por parte dos programas de pós-graduação produz ou amplia quadros de ansiedade e depressão nos estudantes. Já existem estudos que associam, por exemplo, a nota do programa com o sofrimento psíquico de estudantes. Ou seja, quanto maior a nota do programa de pós-graduação, maior o índice de adoecimento/sofrimento psíquico dos alunos de mestrado e doutorado.

Para se ter uma ideia, logo na realização da matrícula nesses programas de pós-graduação, os estudantes são submetidos a uma assinatura de um termo em que se comprometem em realizar as publicações exigidas pelo programa. Se no decorrer do mestrado ou doutorado os discentes não cumprirem esta exigência, serão impedidos de realizar a defesa de tese ou dissertação. Além disso, claro, são ameaçado de perderem as bolsas caso atrazem prazos ridicularmente estabelecidos ou não cumpram metas produtivistas que servem apenas, como sabemos, para gerar números.

Tudo isso produz uma adoecedora sensação de angústia constante nos estudantes, o medo de a qualquer momento, até por conta de um imprevisto, ficarem sem bolsa ou não poderem defender por não terem batido as metas do programa, está literalmente causando um terrível sofrimento mental em estudantes de mestrado e doutorado.

Alguns poderiam aqui alegar que os programas de pós-graduação e suas respectivas coordenações são tão vítimas dessa realidade quanto os estudantes. Mas será? Até que ponto professores e coordenadores desses programas estão, ainda que no discurso, fazendo a crítica a essa lógica produtivista? Será que a maioria deles não estão, ao contrário, fazendo eco e reforçando o produtivismo acadêmico e por consequência o sofrimento mental dos discentes?

E outra coisa, qual o suporte psicossocial que esses programas oferecem para seus estudantes? Uma pesquisa aponta que 5% dos alunos de pós-graduação que procuraram suporte junto aos seus respectivo programas de pós-graduação, não receberam apoio. Talvez por esse motivo que a maioria dos discentes não procuram ajuda dos programas.

Diante disso, fica uma questão: até quanto essa triste realidade permanecerá? E até quando os próprios programas de pós-graduação serão protagonistas, ativos causadores e agravadores do sofrimento psíquico de mestrandos e doutorandos? Por quanto tempo perdurará a negligência perante essa dura realidade?

Uma nota 5, 6 ou 7 vale a saúde mental dos milhares de estudantes? Quem disse que tem que ser assim? Se essas notas refletem a qualidade do programa, de suas pesquisas etc, por qual motivo se ensina num doutorando de um programa com nota 6 ou 7 a fazer um simples projeto de pesquisa? E qual o motivo de ter disciplinas que mais sobrecarregam os discentes com textos vagos do que contribuem com suas pesquisas? Por qual motivo há tantas disciplinas, mais parecendo uma graduação, se a pós-graduação stricto sensu é para desenvolvimento de pesquisa?

Ah! mas com uma nota maior o programa recebe mais recursos. É o que dizem os apoiadores dessa tragédia (geralmente professores que vivem de lattes e coordenadores de PPGs). Cadê então esses recursos quando, por exemplo, precisa-se de uma tradução profissional de um artigo para publicação em revista em benefício do próprio programa? Se com maior nota o programa recebe mais recursos, por qual motivo há um aumento da taxa de inscrição ao longo do tempo? não deveria zerar a taxa já que há mais recursos e a universidade é pública? A conta não fecha.

Em resumo: a pós-graduação stricto sensu é cúmplice do adoecimento e sofrimento metal dos seus discentes.

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