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O que significa fazer pesquisa usando o método de Marx como fundamento?

O que significa fazer pesquisa usando o método de Marx como fundamento?

Para estudantes de graduação ou outras pessoas que estão se aproximando do marxismo pela primeira vez, seja através de grupos de estudo, de pesquisa ou laboratórios, há sempre muitas dúvidas. Isso é, obviamente, algo esperado.

Entre as inquietações que surgem, uma delas diz respeito ao fazer pesquisa tendo como referencial o arcabouço teórico marxiano. Muitos iniciantes pensam que só é possível desenvolver uma investigação em torno de um objeto fundamentado no materialismo histórico-dialético, se o objeto for alguma categoria marxiana como alienação, trabalho, ideologia etc. Mas não é bem assim.

Qualquer objeto de estudo pode ser investigado a partir do referencial teórico-metodológico marxiano. Tomemos por exemplo, a evasão escolar na educação básica. Para estudantes/pesquisadores iniciantes parece ser impossível realizar uma pesquisa em torno desse objeto no âmbito da teoria marxiana. Alguns estudantes recém chegados em grupos e laboratórios que trabalham com o materialismo histórico-dialético, acabam se afastando por pensarem que seus objetos de pesquisa em nada conversam com o marxismo.

Todavia, o materialismo histórico-dialético é tanto uma fundamentação teórico quanto metodológica, e para que seu objeto de estudo possa ser analisado a partir desse referencial, basta que ele seja tomado, analisado, apreendido em sua materialidade, historicidade e dialética inerente.

Ou seja, se ao pesquisar sobre a evasão escolar esta é considerada: 1 - historicamente: sua ontogênese, sua evolução e transformações ao longo da história, seu papel e função social etc; 2 - dialeticamente: suas contradições internas e externas, e; 3 - sua materialidade: sua concretude objetiva, subjetiva etc; ou seja, considerada em sua existência real, tal pesquisa alinha-se com o método marxiano.

O objeto (evasão escolar na educação básica) é apreendido pela consciência como categoria, como determinação do real, do existente (tanto objetivamente quanto subjetivamente). Tomado, portanto, como expressão do real e em sua imanência.

Notadamente, não há possíbilidade de analisar um objeto dessa maneira sem um estudo mínimo dos textos marxianos e dos clássicos do marxismo. Apenas com leituras corridas, não dá. E aqui começa o trabalho duro e exaustivo que muitos desviam e, nesse desvio, procuram encaixar pedaços de texto de Marx em suas monografias, dissertações e teses, sem atentar para o principal: a análise radical do objeto.

Interessante é que muitos pesquisadores, antropólogos por exemplo, que não são marxistas, chegaram em resultados espetacularmente próximos da realidade. Justamente pelo fato de terem, em suas investigações, buscado mostrar a realidade dos seus objetos de pesquisa em sua imanência.

Além disso, que como se vê, já não é pouco, há outro detalhe importante.

A investigação do nosso “objeto-exemplo” evasão escolar na educação básica precisa ser política e ideologicamente orientada. Mas o que isso quer dizer? Significa, grosso modo, que deve atender aos interesses da classe trabalhadora. Nenhuma produção de conhecimento é neutra! No campo do marxismo não é diferente. Nossas investigações devem ter sempre como horizonte a superação do capital e a revolução socialista. E há uma razão ontologicamente posta para esse “dever-ser”.

Abrindo um parêntese, é lógico que, por várias questões, inclusive de sobrevivência, a pesquisa ainda que orientada pelo materialismo histórico-dialético precisa ser submetida a burocracia do Estado burguês. Isso se dá via universidade pública e seus programas de pós-graduação. Nesse contexto, pesquisaores são forçados a atenderem algumas exigências de produtividade meramente acadêmicas e mercadológicas.

Retomando, podemos dizer que fazer pesquisa a partir do referencial marxiano não é só produzir papers, é uma forma de militância. Mesmo que alguns marxistas experientes ainda considerem que militância é apenas defender candidados do PT nas redes sociais e em sindicatos que nada mais fazem que negociar condições de exploração com os patrões.

Em resumo, qualquer objeto pode ser investigado a partir da teoria marxiana, desde que, como dito, seja assumido os pressupostos metodológicos do materialismo histórico-dialético, que se procure mostrar a realidade em sua imanência e que, este esforço tenha como horizonte a superação do capital. Não se trata apenas de uma tarefa acadêmica, é um compromisso com a classe trabalhadora.

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