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Papa Leão XIV: a Rerum Novarum e os comunistas

Papa Leão XIV: a Rerum Novarum e os comunistas

Que a religião em geral é sempre reacionária e conservadora, disso já sabemos. É sabido também que esse caráter, em última instância, relaciona-se com a própria natureza do reflexo religioso. Se tomarmos uma instituição específica como a Igreja Católica Apostólica Romana, os exemplos de reacionarismo e conservadorismo são quase incontáveis.

Agrava ainda este estado de coisas o fato da religião ser um complexo ideológico poderoso, constituindo-se igualmente como um instrumento de alienação por excelência. Para piorar, goza de poder econômico e político invejável, comparável apenas com os super ricos.

Nesse contexto, e dado a eleição recente do novo Papa, é importante refletirmos sobre o que o novo papado pode representar ao movimento comunista e aos trabalhadores em geral. Ainda mais no tempo atual extremamente contrarrevolucionário.

A eleição do novo Papa Tomou conta da mídia nos últimos dias o falecimento do Papa Francisco, ganhando destaque na sequência o processo de escolha do novo pontífice. Na quinta feira passada, dia 8 de maio, teve fim a eleição entre os cardeais e o mundo conheceu o novo Papa: Leão XIV.

De origem estadunidense, Robert Prevost, agora Leão XIV, tem causado expectativas sobre sua forma de conduzir a maior empresa religiosa do mundo. Alguns sinalizam que, por sua formação, o novo pontífice tenderá a dar continuidade ao movimento de abertura da Igreja Católica iniciado pelo seu antecessor. Isso sobretudo no que diz respeito à comunidade LGBTQIAP+. Muito embora, como tem manifestado certos veículos de comunicação, o novo líder da Igreja Católica já tenha iniciado seu governo em desacordo com um desejo do Papa Francisco. Este, segundo divulgado pela correspondente internacional da Rede Globo, desejava que seu sucessor adotasse o nome de João 24.

Para outros o fato de Robert Prevost ter adotado a alcunha de Leão XIV, significa que dará continuidade, isso sim, ao legado de Leão XIII. Este comandou a Igreja de Roma entre 1878 e 1903. É visto por alguns como um diplomata, um conciliador que teve seu papado marcado por, entre outras coisas, a posição adotada em face dos operários encíclica Rerum Novarum.

Em virtude das ideias expressas na Rerum Novarum, Leão XIII é tido como o criador da doutrina social católica moderna. Trocando em miúdos, a imagem atual que a Igreja Católica tem das questões sociais, destacadamente em relação aos pobres e miseráveis, funda-se a partir das ideias de Leão XIII expostas na Rerum Novarum.

É desnecessário dizer que tal documento é abraçado por amplo setor da sociedade como sendo extremamente avançado. Até mesmo muitos marxistas e comunistas o tomam, pasmem, como algo vantajoso no sentido da superação da exploração da classe trabalhadora.

Vamos então relembrar o que diz a famigerada Rerum Novarum.

Relembrando a Rerum Novarum Dedicada a tratar sobre a condição dos operários, a Encíclica Rerum Novarum reconhece já no início que “É difícil, efectivamente, precisar com exactidão os direitos e os deveres que devem ao mesmo tempo reger a riqueza e o proletariado, o capital e o trabalho”. Logo em seguida, assume “que é necessário, com medidas prontas e eficazes, vir em auxílio dos homens das classes inferiores, atendendo a que eles estão, pela maior parte, numa situação de infortúnio e de miséria imerecida”.

Até aqui pareceria, para os mais desavisados, que a Igreja Católica está de fato preocupada em retirar os trabalhadores e trabalhadoras dessa tal condição de miséria imerecida. Pareceria até avançada para os mais otimistas. Mas o que seria então a causa dessa miséria dos proletários?

Para o Papa Leão XIII e sua Igreja, conforme expressa a Rerum Novarum, eis a causa: “O século passado destruiu, sem as substituir por coisa alguma, as corporações antigas, que eram para eles uma protecção; os princípios e o sentimento religioso desapareceram das leis e das instituições públicas, e assim, pouco a pouco, os trabalhadores, isolados e sem defesa, têm-se visto, com o decorrer do tempo, entregues à mercê de senhores desumanos e à cobiça duma concorrência desenfreada”.

Apesar de mencionar a mudança nos processos de produção, e por conseguinte a própria virada do feudalismo para o capitalismo, o texto do pontífice limita-se tão somente a uma menção superficial. Todavia, como era de se esperar, lamenta que as leis e instituições públicas tenham deixado de lado a contaminação religiosa. Para Leão XIII, reside verdadeiramente aí o motivo para a miséria do proletariado, uma vez que isso desemboca na desumanidade dos senhores, na cobiça e na concorrência. Colocado o cerne do problema no âmbito religioso-teológico, veremos que a saída só poderá ser da mesma natureza: religiosa.

Antes porém de apontar a saída religiosa milagrosa, a Rerum Novarum – leia-se, a Igreja Católica – ataca os socialistas e exalta a propriedade privada. Logo ela, a Igreja detentora de um patrimônio até hoje incalculável, defender explicitamente a propriedade privada? Quem imaginaria, não é mesmo? Vejamos: “Os Socialistas, para curar este mal, instigam nos pobres o ódio invejoso contra os que possuem, e pretendem que toda a propriedade de bens particulares deve ser suprimida”.

A luta dos socialistas pela superação da exploração do trabalho e da sociedade de classes é reduzida pela Rerum Novarum a uma questão subjetiva: inveja e ódio. Tendo perdido a posição central que ocupou durante séculos, e consequentemente se esvaído boa parte de sua influência ideológica, Leão XIII, em nome da Igreja Católica de Roma, teme agora perder suas propriedades, seus bens materiais. A maioria dos quais tomados de saque durante as Cruzadas. O ataque aos socialistas continua, segundo a Rerum Novarum, a saída apontada por estes “é sumamente injusta, por violar os direitos legítimos dos proprietários, viciar as funções do Estado e tender para a subversão completa do edifício social”.

A defesa e exaltação da propriedade privada é tamanha que beira o ridículo. Segundo o texto papal, “Deus concedeu a terra a todo o género humano para a gozar, porque Deus não a concedeu aos homens para que a dominassem confusamente todos juntos […] Deus […] quis deixar a limitação das propriedades à indústria humana […] dividida em propriedades particulares, a terra não deixa de servir à utilidade comum de todos”. Pretende Leão XIII que a propriedade privada seja uma determinação divina, e assim sendo não pode ser suprimida. Esquece apenas de quanto sua Igreja saqueou de vários povos, deixando-os quase sempre em situação de miséria, quando não, os assassinava em nome de Deus.

O tom da encíclica segue daí para pior, o que não se faz necessário gastarmos mais tempo com trechos dessa natureza. É válido apenas destacar que o texto de Leão XIII reserva uma seção para dizer que o comunismo e a luta socialista são, na verdade, o princípio do empobrecimento. Isso, como é óbvio, não passa de uma tentativa de dissuadir os trabalhadores cristãos de participarem de movimentos comunistas daquela quadra histórica.

Em outro momento, Leão XIII afirma que os homens devem se contentar pacientemente com sua condição. Ou seja, que aceitem de forma submissa a exploração e miséria que lhes é imposta. A conciliação de classes é tacitamente defendida pelo pontífice, enquanto é negada a luta de classes. No mesmo sentido, clama ao Estado que proteja a propriedade privada e depois de linhas e linhas de delírios, chega a tão esperada solução: a caridade religiosa. Para arrematar, propõe ainda que “só a religião […] é capaz de arrancar o mal pela raiz, lembrem-se todos de que a primeira coisa a fazer é a restauração dos costumes cristãos”.

O que os comunistas devem esperar? Nada. Seja o novo Papa um continuador de Francisco ou de Leão XIII, isso não significará absolutamente nada de avanço revolucionário para os comunistas. Não há como se enganar com a religião e com a instituição religiosa, sobretudo a Católica Romana. A história já nos deu provas mais que suficientes.

A Rerum Novarum é explicitamente um combate ao comunismo e uma defesa do capital. Seja quem for a inspiração de Leão XIV, a religião continuará sendo por excelência reacionária e reproduzirá – independente das qualidades pessoais do Papa – predominantemente o capital.

Por mais avançadas que possam ter parecido as posições do Papa Francisco, elas em nada contribuíram do ponto de vista da revolução socialista. Apesar disso, alguns grupos contemplados por posições do Vaticano no papado anterior, que por vezes até se dizem contra o capital, se embelezam com essas migalhas – como a bênção de casais homoafetivos – e se esquecem que tais coisas nada mais são que medidas conciliatórias. Estas não fazem avançar, como dissemos, um centímetro sequer contra o capital.

Em resumo, se a forma de governo que Leão XIV assumir o padrão de Leão XIII, não se pode esperar nada além de um tempero a mais na contra-revolução. É preciso que estejamos atentos e sempre alertas.

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