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Parte I - Tempo e local


No ano oitenta e seis
Findando o século vinte
No distrito de Serrote
Lugar ermo sem requinte
Nasce Antonio Nascimento
Que vos faz agora ouvinte


Zona rural bem distante
De ir lá se tem desgosto
Estrada de terra batida
De um Juremal viçoso
Só vai lá quem tem negócio
E é muito ambicioso


Mercantil não existia
Nem dinheiro pra comprar
Só tinha lá as bodega
Com caderno de anotar
Se o patrão não liberasse
Não podia despachar


Era assim Serrote Preto
De Itapiúna um rincão
Onde muitos trabalhava
Pra sustentar o patrão
Que pagava com esmola
Desprezo e perseguição


Foi desse lugar que vim
Depois mudei pro Onofre
Com meus pais a acreditar
Que mudavam minha sorte
Mas as nossas condições
Já traçara todo o norte


Parte II - O milagre


Ao citar essa mudança
Logo tive que lembrar
Do sufoco que passei
Sem ainda nem falar
Tido como um milagre
Impossível de explicar


Assim contou o meu pai
Que numa tarde qualquer
Eu parecia saudável
Quando chega uma mulher
Se admirando de mim
Pediu água e deu no pé


Antes que ela pudesse
Desaparecer na estrada
Minha mãe já percebeu
Que algo estava errado
Pois eu já desfalecia
Como alguém adoentado


Naquele final de mundo
Medicina não havia
A opção que restava
Era apelar pra magia
Consultando um rezador
Seguindo o que ele dizia


Assim fizeram comigo
Fui levado ao rezador
Um senhor calmo e tranquilo
Na minha fronte tocou
Cochichou umas palavras
E aos meus pais avisou


É mal olhado a doença
Disso já tenho certeza
Se não der sinal de vida
Enquanto a reza aconteça
Não há nada que fazer
Disse o velho com tristeza


Para felicidade minha
O “milagre” aconteceu
Lá pelo meio da reza
Os dedos já se mexeu
Antes da reza acabar
Um sorriso apareceu


Assim relata meus pais
O milagre acontecido
Intervenção do divino
Dizem bem agradecidos
Hoje sei que se tratava
Do ainda não conhecido


Parte III - O trabalho


Vivia-se de agricultura
No roçado me criei
Entre as carreira de milho
Eu um dia engatinhei
E até os 18 anos
Foi aí que trabalhei


De sol a sol no roçado
Meus pais iam todo dia
Ainda cuidavam das reis
Pra ganhar a moradia
Uma tamanha miséria
Que só deus os socorria


Eu ia mas não gostava
Isso tenho que afirmar
Nunca gostei de roçado
Ter que cedo levantar
Só ia porque eu tinha
Os meus pais pra ajudar


Parte IV - Família


Me permita agora aqui
Lhe falar com emoção
Sobre Raimundo Nonato
O meu querido irmão
Que penou feito a molesta
Pela minha criação


Hoje ele é professor
Trabalha na educação
Foi quem mais me inspirou
Seguir essa profissão
Se eu nascesse mil vezes
Queria o mesmo irmão


Mas não é assim que o chamo
No dia a dia da gente
Aprendi desde criança
A tratá-lo diferente
Só o chamo de manin
Não importa o ambiente


Nunca disse isso a ele
Mesmo com oportunidade
É que nem tudo comporta
A emoção que um verso cabe
Que mesmo sem ser poeta
Me sinto mais à vontade


Parte V - A exploração


Naquele tempo era assim
Ainda havia escravidão
Meus pais pra cuidar de mim
Viviam de surreição
Por três dias da semana
Eram escravos do patrão


Três dia pro fazendeiro
Pra cuidar de cerca e vaca
Ou pra limpar cajueiro
Pra ter direito uma casa
Feita de barro vermelho
Porta de lata amassada
Ou de palha de coqueiro


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