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O que fazer? defender o estado burguês?

O que fazer? defender o estado burguês?

Para nós comunistas uma pergunta é sempre muito incômoda: o que fazer? Como não há homogeneidade dentro do comunismo, a resposta para esta questão varia muito. Por incrível que pareça, há quem pense que candidatar-se a um cargo político é não só uma resposta possível, mas a melhor que podemos dar.

Outros grupos, mais indispostos com o jogo político burguês, acham que o mais viável é construir movimentos de enfrentamento por fora do lamaçal da política. Estes, diferentes do primeiro, preferem se organizar em coletivos e grupos de acordo com seus setores de trabalho e atuarem em manifestações e atos de rua.

Poderíamos gastar horrores de linhas aqui para trazer vários exemplos de posições diferentes em relação ao “o que fazer”. Poderíamos também fazer uma consideração mais teórica ou ainda mais… filosófica sobre a questão, mas acreditamos que Lenin já fez isso por nós.

Queremos, na verdade, focar na reação, na posição perante esta questão dentro da educação. Vejamos.

Não é novidade que para os(as) camaradas que lidam com a educação formal – burguesa e totalmente alinhada aos interesses do mercado –, seja em sala de aula ou em outros espaços do campo educacional, é angustiante perceber o quão oposto é o cotidiano da educação em relação ao nosso horizonte revolucionário. É mais que angustiante, é deprimente, frustrante.

Junto disso, os professores são banhados pela sensação de impotência perante essa realidade cruel imposta ao campo educacional pela sociabilidade vigente. Nessa situação limite, muitos professores e outros profissionais da educação simpatizantes ao comunismo, enxergam como caminho ocupar cargos na hierarquia administrativa da educação.

Para estes, ao que parece, assumir uma coordenação pedagógica de uma escola, uma direção, ou mesmo uma secretaria de educação, seria uma forma de implementar de algum modo seus ideais político-ideológicos. Em síntese: seria uma maneira de fazer algo efetivamente prático.

Imaginam que, ocupando tais posições na hierarquia da educação, seja a nível municipal, estadual ou federal, estão contribuindo de forma prática para a revolução socialista. Tal forma de ler a realidade tem, não obstante a boa vontade daqueles que a elegem como solução, vários equívocos. Vejamos dois dos principais.

O primeiro deles é que, de modo geral, quem opta por este caminho tende a pensar o estudo como algo puramente teórico, desprovido de uma prática revolucionária. Bom, antes de qualquer coisa, o próprio ato de estudar pode ser uma ação, uma prática revolucionária. Isso vai depender do que e como se está estudando. O mesmo raciocínio vale para quem está produzindo teoria – o que geralmente se dá a partir de estudos. Quem escolhe o caminho do “agir de modo prático e não ficar apenas na teoria”, pode considerar que a produção teórica é algo desligado da prática e que nada tem de revolucionário. Terrível engano! Pois depende de que tipo de teoria se está produzindo e a serviço de que classe social.

Então, para quem desconsidera o estudo e a consequente produção de conhecimento como atitudes, como prática revolucionária, é bem mais suscetível de buscar ocupar espaços burocráticos dentro de suas áreas de trabalho como meio para fazer valer sua luta revolucionária.

Para nós comunistas não há, todavia, teoria separada da práxis.

O segundo equívoco decorre do primeiro: Achar que é possível, por exemplo, ocupar uma coordenação, uma direção e, por dentro, implementar ideias comunistas. Sabe aquela velha frase? O todo é maior que a soma das partes. Ou, em termos marxianos: o concreto é a síntese de múltiplas determinações, a unidade do diverso? Então, não faz sentido acreditar que se possa fazer algo revolucionário dentro da burocracia do estado burguês.

O terceiro equívoco, também diretamente ligado aos anteriores, é que esse modo de atuar, de buscar a qualquer custo algo “prático” a ser feito, geralmente acaba no praticismo. Este, por consequência, carece de direção teórica, e sem uma base sólida na teoria revolucionária, qualquer um fica muito mais suscetível de se entregar aos encantos do capital, do estado burguês, das políticas públicas, da pedagogia histórico-crítica etc.

Não cair nesses “canto de sereia” não significa, nem de longe, ficar de braços cruzados esperando a revolução acontecer. Como já dissemos, há várias maneiras de se organizar e desenvolver ações de caráter revolucionário – autenticamente revolucionário – fora do estado. Aliás, somente fora do estado burguês isso é possível.

O próprio estudo, quando de caráter revolucionário, voltado para a profunda compreensão do mundo e sua radical transformação, é, por si, uma ação revolucionária. Dedicar-se a esse tipo de estudo – e de produção teórica – não é ficar parado, é instrumentar-se dos fundamentos da teoria autenticamente revolucionária e aplicá-la, por exemplo, na organização da classe trabalhadora com vistas a superação do capital.

Em resumo, se fazer presente em toda manifestação de rua, em toda ocupação, não faz de alguém necessariamente um revolucionário. Pior ainda se tais ações são voltadas para a melhoria das políticas públicas. Então camarada, da próxima vez que bater aquela sensação de que “não está fazendo nada”, pense bem, sua resposta ao “o que fazer” pode, ao invés de fazer avançar a organização da classe trabalhadora com vistas a superação do capital, corroborar o capital, o estado burguês e a exploração do humano pelo humano.

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