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Jung e a falta de fundamentos materiais para a necessidade religiosa

Jung e a falta de fundamentos materiais para a necessidade religiosa

A religião tem sido objeto de atenção de psicólogos e psicanalistas ao longo do tempo. Sabe-se, por exemplo, que Jung dedicou significativo espaço em sua obra para tratar especificamente da religião.

Grosso modo, Jung entende a religião sob a mesma base que Otto, ou seja, como uma relação com o numinoso. As peculiaridades com as quais cada povo vivencia sua própria experiência frente ao numinoso produz, mediante um processo de cristalização, as mais variadas formas de religião.

O que mais chama a atenção em Jung no que diz respeito a sua abordagem da religião é que, para ele, o pensamento adquire status de “real”. Ou seja, se uma ideia existe enquanto pensamento, então ela é real para a psiquê. Isso é importante pelo fato de que, partindo dessa premissa, pode-se afirmar que as ideias religiosas, a necessidade da relação com o numinoso são, igualmente, reais.

Mas estas não são reais apenas por existirem para a psiquê, mas pelo fato de que elas operam transformações na realidade material. Vejamos. Imaginemos que Chico tem uma ideia terrível sobre Pedro e por isso tem Pedro como inimigo mortal, que portanto deve ser eliminado. Uma vez que Chico leve a cabo a eliminação de Pedro, podemos dizer que uma ideia lhe causou a morte.

Com as ideias religiosas em torno da experiência do numinoso, sucede o mesmo. Elas operam transformações não só no exterior como no próprio indivíduo. De fato, as ideias religiosas têm, ao longo da história, operado transformações e interferido de forma inegável na realidade material. Mas… falta alguma coisa nessa história.

Ao que parece, Jung parte do pressuposto da religião como algo universal. Além disso, sua colocação da questão religiosa assume muitos pressupostos sem, todavia, fundamentá-los adequadamente. Por exemplo, a explicação junguiana não dá conta suficientemente da origem das ideias religiosas, ou, de como se produz a necessidade do numinoso, de um mistério “tremendum”.

Perigosa também é a rapidez com a qual Jung transforma ideia, pensamento em realidade fora do indivíduo. Além disso, tal linearidade não encontra correspondência numa análise imanente da questão.

Se levarmos estas posições de Jung até às últimas consequências, é quase como se o divino fosse, em alguma medida, inato.

É desnecessário dizer que, se aqui considera-se como problemática a concepção junguiana da religião, especialmente nesse ponto tratado, não significa que se está fazendo pouco caso de sua contribuição para o entendimento da relação entre religião e psicologia.

Uma vez que a religião consiste numa excelente ferramenta ideológica e de alienação, todas as contribuições no sentido de entendê-la no aspecto psicológico são caras.

E, por fim, é válido mencionar que apesar de muitos avanços em técnicas de pesquisa nesse campo, ainda estamos engatinhando para entender todos os desdobramentos da relação psicologia-religião no momento atual. Momento esse que, parece aprofundar cada vez mais a utilização da religião como instrumento de domínio e controle sobre grupos de pessoas

Jung deixou, certamente e de forma brilhante – considerando o seu tempo –, sua parcela de contribuição para esse entendimento.

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