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Qual a relação da matemática com a dupla verdade?

Qual a relação da matemática com a dupla verdade?

Com o desvanecer do iluminismo, o que parecia caminhar para uma sempre mais profunda tendência em apreender a realidade em seu em-si, desaguou num pantano gnosiológico. O que sinalizava a chegada de uma ciência que tivesse por base uma consideração cada vez mais ontológica do mundo, ao final, levou-nos ao neopositivismo.

A necessidade religiosa, já de caráter outro em face daquela antes das luzes, não mais impunha ao reflexo científico seu modo de ser, não mais perseguia aquelas mentes mais tendenciosas a conhecer a realidade como ela é em si. Sob o neopositivismo, era a ciência que, gentilmente, cedia à religião um espaço de manobra. Ou, um campo de conciliação e harmonia.

Nesse contexto, a matematização da apreensão do mundo serviu muito utilmente como ferramenta para concretizar – e celebrar – a paz entre religião e ciência. A matemática assumida no neopositivismo como expressão última de toda a verdade, necessariamente negligencia a realidade em sua imanência. Pela linguagem matemática pode-se, sem muito esforço, operar qualquer tipo de manipulação do real.

Ora, a partir do momento em que a realidade pode ser moldada, manipulada matematicamente, o resultado – e nem é preciso levar o raciocínio até às últimas consequências – é que pode-se ter várias verdades sobre o mesmo objeto. Isso, naturalmente, abre um espaço de manobra significativo para a religião. Se há várias verdades – ou uma dupla verdade – uma delas pode ser a orientada pelo reflexo religioso.

Daí decorre que, como se sabe, não há necessária concorrência entre religião e ciência neopositivista. Se por um lado a realidade social demanda ainda necessidades religiosas – ainda que diferentes das anteriores, repito –, por outro lado, o neopositivismo diz: o mundo é manipulável, ele é o que quisermos, desde que possamos expressar matematicamente. A matemática é o critério de verdade.

Isso não implica, todavia, que o neopositivismo dê importância para a necessidade religiosa, muito menos que essa última comungue com as ideias estritas do neopositivismo. Acontece que, como dito, pela apreensão gnosiológica da realidade, sua manipulação e consequentemente negação, abre-se espaço para a religião. Esta que, não poucas vezes, faz uso inclusive dos achados neopositivistas para reforçar seu próprio espaço de manobra.

Nesses termos, a matematização da ciência neopositivista é uma espécie de nova e refinada dupla verdade belarminiana.

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