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A religião dominante é a religião da classe dominante

A religião dominante é a religião da classe dominante

Uma rápida olhada na história, em como se dá a relação da religião com a classe economicamente dominante em cada momento da história das sociedades, em cada nação, veremos um padrão: a religião dominante é a religião da classe dominante.

Assim como Marx e Engels expuseram na Ideologia Alemã, que a ideologia dominante é a ideologia da classe dominante, a mesma regra vale para a religião. Por sinal, a religião é, como se pode deduzir a partir de Lukács, uma ideologia. Ou melhor, ela pode cumprir em dado momento histórico a função de dirimir conflitos sociais entre classes sociais.

Essa função, todavia, não implica necessariamente em algo positivo ou negativo para a sociedade como um todo. Na realidade, enquanto cumpre função ideológica, a religião atua dirimindo conflitos em desfavor da classe trabalhadora, contribuindo desse modo para, nos limites das contradições inelimináveis da realidade, para a manutenção do domínio pela burguesia.

Vejamos o exemplo brasileiro. Como sabemos, o cristianismo predomina por aqui, é ele também a religião da elite econômica brasileira. Nós temos uma bancada evangélica no Senado e Camâmara Federal e até a presente data, ainda se registra crimes de intensa violência contra templos e adeptos de outras religiões que não fazem parte do bloco cristão. E isto, claro, não é de hoje, desde o Brasil Império é facilmente constatável o que afirmamos acima: a religião dominante é a religião da classe dominante.

Lógicamente, não precisa-se de uma lei que determine que a religião dominante deve ser a religião das elites. Não é assim que funciona. Até mesmo pelo fato de que, ter expresso nas leis uma vertente religiosa em específico como a que deve ser proclamada, contraria o tal princípio da laicidade do Estado brasileiro, falsa laicidade, para ser mais preciso. Mas isso é outra história.

Nesses termos, a religião reflete, é produto de uma dada realidade social em determinado contexto histórico. As crenças, os deuses, os rituais etc, se dão, segundo cada época e momento na história. Não há nada de universal na religião, como algo extra-mundano, caído dos céus. A religião é, sem nenhuma dúvida, histórica.

Mas se a religião tem ou pode ter essa função social enquanto ideologia, atuando como meio para dirimir conflitos sociais entre classes sociais, poder-se-ia perguntar como ela cumpria esse papel numa sociedade anterior ao aparecimento das classes sociais. Acontece que, antes de surgir uma classe social que controla e domina outras classes, ou seja, dentro do que chamamos de coletivismo primitivo, não existia o que conhecemos como reliligião, mas sim, predominava o reflexo mágico-animista.

Ora, numa organização social em que não existia excedente, em que toda a vida de um indivíduo, diariamente, girava em torno da sua mais imediata sobrevivência; numa sociedade em que não se reconhecia entre o bando, nenhum indivíduo dotado de poderes especiais para comandar, controlar os demais, onde não havia hierarquia, onde a imensa maioria das atividades se davam coletivamente, não era possível a existência da ideia de um deus todo poderoso que tudo pode e tudo controla.

No máximo, uma sociedade assim suspeitava a existência de forças imateriais e, procuravam dominar tais forças, manipulá-las para obter alguma vantagem. Por exemplo, as práticas mágicas voltadas para trazer a chuva, acalmar os ventos, águas etc.

Só quando surge na história classes sociais antagônicas, ou seja, quando surge uma realidade em que humanos subjugam outros humanos, controlam, exploram etc, portanto, criando uma hierarquia entre iguais que agora passam cada vez mais a distanciarem-se; só num contexto desses é possível surgir a ideia de um deus que, a exemplo dos humanos, exerce poder, medo, coerção, punição e é hierarquicamente superior. Só a sociedade de classes comporta uma divindade nesses moldes.

Mas, se quisermos tratar as práticas mágicas, pelo menos as mais evolucionadas, como sendo algo parecido com religião, então teríamos que fazer ao menos a seguinte distinção: antes do advento das sociedades cindidas em classes, tínhamos uma religião, como idelogia, em sentido amplo; uma vez surgida as classes sociais, temos a religião, novamente como ideologia, mas agora em sentido estrito.

Bom, as classes dominantes ao longo da história, evidentemente, fazem o melhor uso possível da religião para si. Hoje não é diferente, a classe dominante por meio da religião dominante busca perpetuar seu status, seu poder político e econômico. Basta vermos como a religião tem sido cada vez mais usada em palanques políticos, ou, como os púlpitos tem cada vez mais dado espaço para proliferação de ideias da classe dominante, sejam elas mais para a direita ou para a esquerda do espectro político.

Por fim, o próprio jogo político como um todo da democracia burguesa está totalmente atravessado pela religião. Claro, a religião deles mesmos, da elite, da classe dominante.

Obs1: talvez um dia, quem sabe, escreverei artigo sobre isso. Obs2: Quem quiser aprofundar o conteúdo do post leia a Ideologia alemã e a Ontologia, especialmente o volume 14, mas de preferência o volume 13 também.

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