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Alguns traços antropomórficos do Deus cristão

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Alguns traços antropomórficos do Deus cristão

Como sabemos, Feuerbach foi, entre os pensadores mais recentes e anteriores a Marx, o que mais acertadamente percebeu que a religião (e os deuses) são produções humanas. Projeções de traços humanos limitados, imperfeitos, em uma forma completa, pura e universal: Deus.

Apesar de conter sérias lacunas, a crítica da religião efetivada por Feuerbach foi, dentro de seus limites, muito avançada. Ela remete para um aspecto interessante da religião, que é seu antropomorfismo. Ou seja, a religião - ou a leitura de mundo religiosa, se preferir - atribui ao mundo traços que são essencialmente humanos.

Vejamos. Para a religião há uma “inteligência” por trás de tudo que existe. Por exemplo, o fato - totalmente aleatório - dos planetas orbitarem o Sol, para a religião não é algo arbitrário, trata-se de algo intencional, planejado para ser assim. Óbvio, que por trás desse planejamento está Deus.

O próprio Deus cristão tem, como podemos verificar em diversos momentos dos textos bíblicos, traços essencialmente humanos. O mito da criação do mundo lá no Antigo Testamento é bastante claro ao afirmar que Deus, após seis dias de trabalho, descansou. Não há nada mais humano, mais pedestre, mais objetivamente social que um trabalhador descansar após uma jornada de trabalho.

Por que um Deus onipresente, onipotende etc precisa descansar? ou, antes de tudo, por que precisa trabalhar? não bastaria um estalar dos dedos e tudo estaria feito, já que Ele já sabia - pela sua oniciência - de tudo antes de qualquer coisa existir? Sabemos que a teologia - pseudociência - tentar arrumar um sentido para todas estas e outras questões, mas sabemos também que este esforço teológico já tem como falho o próprio ponto de partida.

Em outro momento, também no texto do Antigo Testamento, Deus se arrepende de sua criação. Nem preciso dizer o quão humano é tal sentimento, isso para não falar na inveja e da ira divina que também aparecem nos textos bíblicos.

Estes traços antropomórficos do Deus cristão, todavia, se comparados com outras tradições religiosas, são mais refinados, mais mediados. Basta olharmos para o panteão grego. Neste, os sentimentos, emoções, personalidades e comportamentos humanos são presentes de maneira bem mais intensas, mais humanamente humanas.

Estes e tantos outros exemplos do antropomorfismo das religiões são, em parte, testemunhas da concepção de religião que lemos em Feuerbach.

E para saber mais sobre este assunto, leia A essência do Cristianismo (Feuerbach), Lucien Lévy-Bruhl (A mentalidade primitiva).

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