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Aos mártires do puro amor cristão

Aos mártires do puro amor cristão

É possível que você já tenha ouvido falar sobre as Cruzadas. Incursão predominantemente militar operada pela Igreja Católica com finalidade de combater o paganismo e a heresia. Mas esses eventos quase sempre são tratados de forma, digamos, muito generalista, sem atentar para os detalhes. Neste post, tentarei apresentar justamente alguns pormenores de uma dessas Cruzadas.

Os Cátaros eram pessoas adeptas ou praticantes do catarismo, um movimento cristão que mantinha algumas práticas e crenças divergentes com o cristianismo ortodoxo. Há registros da presença dos Cátaros em várias regiões da Europa, com concentração proeminente no sul da França, em torno de uma cidade chamada Albi.

Entre as crenças e práticas religiosas dos Cátaros, pode-se destacar a ideia de um dualismo divino, algo como a existência de um deus bom e um deus mal. O primeiro seria criador do espírito, o segundo, da matéria. A reincarnação da alma também era uma crença entre estes povos, bem como, a ideia de que a alma pode reincarnar. Defendiam ainda o celibato e a concepção de uma aspecto feminino do divino.

O pecado maior, todavia, era a descrença, descredibilização do sacerdócio e da estrutura de poder do cristianismo. Isso implica uma não subordinação direta ao Santo Pontífice.

Com o catarismo se tornando cada vez mais popular, inclusive entre certos nobres, o mais jovem Papa que já existiu, Inocêncio III, tomou uma decisão para conter o catarismo de vez, ou, o que ele chamava de heresia. Inocêncio III ordenou a eliminação total dos Cátaros ali da região de Albi, por isso esta Cruzada é chamada por alguns de Cruzada Albigense, em referência a cidade na qual se concentravam os Cátaros.

Eis, então, que por volta de julho de 1209, as tropoas sob o mando do Papa, inicia o extermínio os Cátaros. Iniciava-se mais uma das chamadas Cruzadas Santas. Segundo o cronista Cesáreo de Heisterbach, a missão era matar todos - independente de filiação religiosa - pois Deus reconheceria os seus. Isto seria, segundo se relata, ordens do próprio Papa.

Em Montségur, há ainda hoje uma espécie de monumento em memória dos Cátaros. Só ali foram queimados duzentos deles.

No monumento está escrito em occitana, “Als catars, als martirs del pur amor crestian 16 de març 1244”, que significa “Aos cátaros, aos mártires do puro amor cristão”. Essa demonstração de amor, vale lembrar, foi apenas mais uma entre tantas outras que vieram antes e também depois.

O massacre iniciado em 1209 duraria 20 anos em sua forma mais intensa, se extendendo até 1255 com a captulação final do Castelo de Quéribus de, de acordo com alguns historiadores. O saldo desta ação de amor sob comando do Papa Inocêncio III é estimado em duzentas mil mortes, sendo que alguns registros medievais sinalizam algo próximo de um milhão. Incluindo-se as mortes indiretas causada pela Guerra Santa, como a fome.

O motivo disso tudo: a existência de pessoas que simplesmente não concordavam com alguns aspectos do cristianismo. Os cátaros não atacavam os que não aderiam ao catarismo. Eles próprios eram cristãos, mantiam apenas divergências com o cristianismo tradicional daquela quadra história. O preço: pagaram com suas próprias vidas, com sua própria eliminação, direta, sem piedade.

Findando o século XIII as Cruzadas sairiam de moda, mas entraria em cena uma outra forma da cristandade mostrar seu amor ao próximo: a Santa Inquisição. Mas sobre isso falaremos, talvez, num outro post.

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